As eleições presidenciais e legislativas realizadas a 29 de outubro na Tanzânia desencadearam uma onda de manifestações antigovernamentais que foram violentamente reprimidas pelas forças de segurança. Durante vários dias, confrontos intensos marcaram o país, num dos episódios mais graves da sua história recente. Até então, as autoridades não tinham divulgado qualquer balanço oficial das vítimas, aumentando a pressão interna e internacional por transparência.
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Anuncie aqui!Segundo a comissão de inquérito liderada por Mohamed Chande Othman, o número de mortos ligados à violência eleitoral ascende a 518 vítimas, incluindo 490 homens e 28 mulheres. Entre os mortos encontram-se ainda 16 agentes da polícia e 20 crianças com idades entre os 5 e os 17 anos, revelando a gravidade da situação. O relatório aponta também para 2.390 feridos, dos quais 120 pertencem às forças de segurança, embora admita que estes números possam ainda evoluir.
O relatório foi apresentado em Dar es Salaam e não identifica diretamente os responsáveis pelas mortes, o que tem gerado críticas. A ausência de atribuição de responsabilidades levanta dúvidas sobre a imparcialidade da investigação e sobre a real intenção de apurar os factos. Este silêncio institucional reforça as suspeitas de uma possível tentativa de controlo narrativo por parte das autoridades.
O principal partido da oposição, Chadema, rejeitou de imediato as conclusões da comissão, classificando-a como “não independente nem imparcial”. A formação política acusa o governo de ter nomeado membros ligados ao poder, comprometendo a credibilidade do processo. A contestação intensifica o clima político já tenso após eleições amplamente criticadas por observadores internacionais.
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Anuncie aqui!A presidente Samia Suluhu Hassan, reeleita com cerca de 98% dos votos, foi alvo de acusações de fraude eleitoral. Enquanto o governo valida os resultados, a oposição e vários analistas internacionais questionam a legitimidade do processo. Este contexto agrava a polarização política e contribui para o aumento da instabilidade no país.
Segundo líderes da oposição, como John Heche, a repressão foi muito mais grave do que o relatório indica, tendo causado mais de 2.000 mortos e cerca de 5.000 feridos em apenas uma semana. Estimativas de diplomatas ocidentais apontam também para números significativamente superiores, entre 1.000 e 2.000 vítimas mortais, o que evidencia discrepâncias profundas entre as versões oficiais e independentes.
A chefe de Estado elogiou o trabalho da comissão e denunciou o que chamou de “informações distorcidas e estatísticas exageradas”, defendendo que a violência foi organizada por grupos externos. Segundo Samia Suluhu Hassan, os incidentes foram planeados, coordenados e financiados por indivíduos treinados, afastando qualquer responsabilidade direta do governo. Esta posição tem sido amplamente contestada pela oposição.
As acusações de encobrimento tornaram-se centrais no debate público. John Kitoka afirmou que o relatório constitui uma “operação de dissimulação” destinada a proteger o regime. Segundo o dirigente, o documento foi concebido para branquear responsabilidades e minimizar a dimensão real da repressão. Estas declarações reforçam a crise de confiança nas instituições do país.
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Anuncie aqui!Outro ponto controverso envolve alegações de desaparecimento de corpos e possíveis fossas comuns. Organizações independentes e testemunhas acusam as autoridades de terem removido cadáveres para ocultar provas. O bloqueio da internet durante os momentos mais críticos da violência contribuiu para dificultar a verificação independente dos acontecimentos.
O presidente da comissão mencionou que algumas informações podem ter sido manipuladas com recurso a inteligência artificial, referindo ainda casos de pessoas que teriam desaparecido por razões pessoais. No entanto, reconheceu que existem indícios de desaparecimentos reais que ainda necessitam de investigação aprofundada. Este reconhecimento parcial não foi suficiente para dissipar as suspeitas.
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Anuncie aqui!Relatórios do Centre for Information Resilience indicam a existência de possíveis fossas comuns identificadas por imagens de satélite, além de evidências de execuções sumárias. Segundo a organização, houve uso recorrente de munição real contra civis, incluindo por indivíduos armados em trajes civis, o que agrava a gravidade das acusações.
Testemunhos de médicos e civis reforçam estas alegações. Um profissional de saúde em Dar es Salaam relatou que centenas de corpos e feridos foram removidos para locais desconhecidos durante os piores momentos da crise. Muitos sobreviventes e testemunhas recusam falar publicamente por medo de represálias, o que dificulta ainda mais o apuramento da verdade.
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Anuncie aqui!Apesar das denúncias, o governo mantém que não houve uso excessivo da força, posição amplamente contestada por organizações de direitos humanos. Acusações adicionais apontam para o envolvimento de figuras próximas do poder, incluindo Abdul Halim Hafidh Ameir, filho da presidente, no apoio às operações de repressão.
Este episódio coloca a Tanzânia no centro das atenções internacionais, levantando questões sobre direitos humanos, transparência eleitoral e responsabilidade governamental. O futuro político do país dependerá da capacidade das autoridades em garantir investigações credíveis e restaurar a confiança pública. Até lá, o país permanece marcado por uma das crises mais graves da sua história recente.









