Na manhã da quinta-feira, na Avenida 24 de Julho, em pleno centro de Maputo, o ambiente era de contenção e nervosismo. Polícias armados tentavam organizar o acesso a um dos poucos postos ainda com combustível disponível. À entrada, acumulavam-se dezenas de pessoas com bidões e garrafas vazias, numa espera incerta. A presença policial tornou-se necessária após confrontos registados nos dias anteriores, num contexto em que o combustível passou, subitamente, a ser um bem disputado.
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Anuncie aqui!Desde quarta-feira, multiplicam-se relatos de altercações entre clientes em diferentes postos da capital. A disputa por um lugar na fila tornou-se cada vez mais tensa, alimentada pela escassez e por práticas denunciadas como irregulares. Funcionários são acusados de exigir pagamentos para permitir o acesso prioritário, um fenómeno que intensifica a frustração e fragiliza a confiança num sistema já sob pressão.
A maioria dos postos de abastecimento em Maputo permanece encerrada, alguns há três dias consecutivos. Nos poucos ainda operacionais, as filas estendem-se por centenas de metros, bloqueando o trânsito e alterando profundamente o funcionamento da cidade. Para tentar gerir a procura, foi imposta uma limitação de abastecimento equivalente a 1.000 meticais por viatura, medida que evidencia a tentativa de evitar um colapso mais rápido dos stocks disponíveis.
À volta dos postos, instala-se uma economia improvisada. Centenas de pessoas aguardam durante horas, muitas vezes sem garantia de sucesso, enquanto outros vendem recipientes usados para transporte de combustível. O tempo de espera pode prolongar-se por várias horas, num cenário que mistura ansiedade, improvisação e resistência quotidiana.
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Anuncie aqui!Inicialmente concentrada em Maputo, a crise começa agora a estender-se a outras regiões do país. Relatos provenientes de várias províncias indicam que a pressão sobre o abastecimento já não é localizada, mas sim um reflexo de perturbações mais amplas na cadeia logística nacional.
Perante o agravamento da situação, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia anunciou “medidas excecionais e imediatas” para garantir o abastecimento de combustíveis líquidos. O objetivo é acelerar o reabastecimento dos postos e assegurar a disponibilidade do produto ao público, numa tentativa de travar o agravamento da crise.
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Anuncie aqui!Segundo a Direção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis, os constrangimentos resultam sobretudo de dificuldades no processo de distribuição, apesar de as importações continuarem a decorrer de forma regular. Para contornar estes bloqueios, o Governo autorizou, com caráter urgente, que os retalhistas adquiram combustível junto de qualquer distribuidor licenciado com disponibilidade, independentemente dos contratos existentes. A medida visa desbloquear rapidamente o circuito de abastecimento, atualmente congestionado.
As autoridades apelam à calma, desencorajando o açambarcamento e o armazenamento doméstico. No entanto, no terreno, o comportamento dos consumidores reflete uma perceção diferente. O receio de rutura de stock e de aumento iminente dos preços continua a alimentar a corrida aos postos.
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Anuncie aqui!O Governo já havia reconhecido, no início da semana, uma pressão significativa sobre os postos de combustível, particularmente em Maputo. O ministro Salim Valá sublinhou que a situação está a ser acompanhada diariamente, sem avançar previsões concretas sobre a sua evolução.
O Presidente da República, Daniel Chapo, foi mais direto ao associar a crise ao conflito no Médio Oriente. Cerca de 80% das importações de combustível de Moçambique dependem de rotas ligadas ao estreito de Ormuz, uma via estratégica atualmente afetada por bloqueios e tensões geopolíticas. A interrupção parcial desta rota tem impacto direto num país altamente dependente de importações energéticas.
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Anuncie aqui!Apesar das dificuldades, o Governo insiste que não existe risco imediato de escassez. Abida Patel, diretora de operações da IMOPETRO, garantiu que há combustível disponível nos terminais oceânicos do país. Segundo explicou, Moçambique deixou de importar diretamente do Médio Oriente, recorrendo agora a outras rotas e mercados para assegurar o abastecimento.
Ainda assim, os efeitos da reconfiguração logística são evidentes. O tempo de transporte aumentou significativamente, passando de cerca de 15 dias para mais de 25 dias. Este atraso encarece os custos de importação e pressiona as empresas do setor, que necessitam de maior liquidez para manter o fluxo de abastecimento.
No terreno, a perceção mantém-se marcada pela incerteza. Para muitos automobilistas, as longas filas não são resultado de pânico, mas sim de uma tentativa racional de garantir mobilidade num contexto volátil. Em várias cidades, a situação repete-se, com exceção de Pemba, onde o abastecimento decorre normalmente.
Entre garantias oficiais e sinais de disfunção no terreno, a crise dos combustíveis em Moçambique expõe uma vulnerabilidade estrutural. Dependente de rotas internacionais e sensível a choques externos, o país enfrenta um momento crítico, em que a evolução de um conflito distante continua a ditar o ritmo da vida quotidiana nas suas cidades.








