Um ataque com drone ocorrido na madrugada de quarta-feira em Goma, no leste da República Democrática do Congo, matou três pessoas, entre elas uma funcionária humanitária francesa que trabalhava para a UNICEF. O bombardeamento, realizado por volta das quatro da manhã no bairro residencial de Himbi, levanta uma pergunta inquietante que atravessa o conflito na região: por que civis continuam a ser atingidos em ataques ligados a uma guerra que deveria ter alvos militares definidos?
A vítima francesa foi identificada como Karine Buisset, funcionária da agência das Nações Unidas dedicada à proteção da infância. A morte foi confirmada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, que pediu respeito pelo direito humanitário internacional e pela proteção dos trabalhadores humanitários que atuam em zonas de conflito. “Eles estão no terreno para salvar vidas”, escreveu o chefe de Estado francês.
O ataque ocorreu numa zona residencial considerada relativamente tranquila dentro da cidade, hoje sob controlo do grupo rebelde Movimento 23 de Março (M23), desde a ofensiva que levou à tomada de Goma em janeiro de 2025. A cidade, capital da província de Kivu do Norte, tornou-se um dos principais epicentros da guerra no leste do país.
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Anuncie aqui!Logo após o ataque, o porta-voz político do movimento rebelde, Lawrence Kanyuka, acusou o governo congolês de estar por trás da operação, classificando o bombardeamento como “um ato de agressão contra uma área urbana densamente povoada”. Segundo ele, o ataque teria sido lançado “muito além das linhas de frente”, colocando em risco milhares de civis.
Até ao momento, o governo de Kinshasa não comentou o episódio, e nenhuma autoridade assumiu oficialmente a responsabilidade pelo ataque.
Imagens divulgadas nas redes sociais mostram socorristas tentando apagar um incêndio no andar superior de uma casa de dois pisos, com o telhado parcialmente destruído. Investigadores do Centre for Information Resilience, organização especializada em análise de conflitos, afirmaram que os danos observados são compatíveis com um ataque aéreo.
Para observadores internacionais, a questão central vai além da autoria imediata do ataque. O que preocupa é a crescente normalização de operações militares em áreas densamente habitadas, num conflito que já provocou milhares de mortos e milhões de deslocados.
Goma foi palco de combates particularmente violentos em janeiro do ano passado, quando combatentes do M23 entraram na cidade numa ofensiva destinada a consolidar o controlo territorial no leste do país. Estimativas indicam que até duas mil pessoas morreram durante aqueles confrontos.
O M23, frequentemente descrito como um grupo apoiado pelo Ruanda, é apenas um entre mais de uma centena de grupos armados ativos na região. O movimento afirma que luta para proteger comunidades tutsis congolesas e outras minorias contra milícias hutus que se refugiaram na RDC após o genocídio de 1994 no Ruanda.
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Anuncie aqui!A realidade no terreno, contudo, é mais complexa. O grupo controla vastas áreas do leste do país e estabeleceu estruturas administrativas paralelas nas zonas sob sua influência, o que prolonga a fragmentação política e militar da região.
Apesar de um acordo de paz mediado pelos Estados Unidos entre os governos do Congo e do Ruanda em dezembro passado, os combates continuam. Nas últimas semanas, Washington impôs sanções ao exército ruandês e a quatro oficiais superiores, acusando-os de apoiar operações do M23.
O ataque desta semana também evidencia outra transformação no conflito: o uso crescente de drones e ataques aéreos. De acordo com dados da organização Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), foram registados 31 ataques com drones ou aviação apenas no último mês na RDC, o número mensal mais elevado desde o início do monitoramento.
Segundo o analista africano Ladd Serwat, este foi o primeiro ataque deste tipo em Goma desde que o M23 assumiu o controlo da cidade. O episódio indica que a guerra está a entrar numa nova fase, na qual tecnologias militares relativamente baratas permitem atingir alvos a grande distância — mas também aumentam o risco de erros e de vítimas civis.
A morte da funcionária da UNICEF ilustra precisamente esse perigo. Trabalhadores humanitários atuam frequentemente em zonas urbanas para prestar assistência a populações deslocadas e vulneráveis. Quando áreas residenciais se tornam palco de operações militares, essas equipas acabam expostas a riscos extremos.
Nas últimas semanas, ataques com drones já haviam atingido outras localidades controladas pelo M23. Em Rubaya, cidade mineira estratégica pela exploração de coltan, um bombardeamento matou o porta-voz militar do grupo rebelde, Willy Ngoma, juntamente com outros comandantes.
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Anuncie aqui!Em resposta, o M23 reivindicou recentemente um ataque com drone contra o aeroporto de Kisangani, demonstrando que ambos os lados do conflito passaram a recorrer a este tipo de armamento.
No meio dessa escalada, civis tornam-se cada vez mais vulneráveis. Em cidades densamente povoadas como Goma, qualquer operação militar — mesmo dirigida a um alvo específico — pode rapidamente transformar-se numa tragédia humana.
Para organizações humanitárias, o episódio desta semana é mais um alerta sobre a fragilidade da proteção de civis em conflitos contemporâneos. Quando a guerra se aproxima das casas, dos bairros e das instituições humanitárias, a distinção entre frente de batalha e vida quotidiana torna-se cada vez mais difícil de manter.




