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Zelensky acusa aliados de pressionarem Kiev e pede mais firmeza contra Moscovo

Presidente ucraniano critica abordagem de Donald Trump, acusa Viktor Orbán de bloquear ajuda europeia e insiste que negociações de paz exigem maior pressão sobre a Rússia.

Mais de quatro anos após o início da guerra com a Rússia, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, endureceu o tom em relação a aliados ocidentais e voltou a exigir maior pressão internacional sobre Moscovo. Numa entrevista concedida ao portal Politico e ao jornal alemão Die Welt, o líder ucraniano afirmou que Kiev está disposta a negociar, mas rejeita aceitar as condições impostas pelo Kremlin, que incluem a cedência de vastas regiões no leste do país.

Falando a partir do palácio presidencial em Kiev, Zelensky reconheceu o desgaste provocado por mais de quatro anos de guerra. “O nosso povo está cansado”, admitiu. Ainda assim, sublinhou que a moral continua elevada e que a Ucrânia não aceitará um acordo que comprometa a sua soberania territorial.

No centro das suas preocupações está o papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cuja administração tem pressionado Kiev a aceitar negociações rápidas com a Rússia. Zelensky considera que a estratégia está mal orientada e defende que Washington deveria concentrar os seus esforços em pressionar Moscovo.

“Precisamos de negociações. Nós apoiamo-las. Mas não confiamos na Rússia”, afirmou. “Espero que os Estados Unidos ajudem a terminar esta guerra, mas precisamos de mais pressão sobre a Rússia, não sobre mim.”

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As declarações surgem poucos dias depois de Trump ter manifestado frustração com o ritmo das negociações e sugerido que Zelensky deveria avançar com um acordo. O presidente norte-americano afirmou acreditar que o líder russo, Vladimir Putin, estaria disposto a negociar um cessar-fogo, enquanto Kiev permaneceria mais reticente.

Desde que regressou à Casa Branca em 2025, Trump tem provocado inquietação entre os aliados europeus da Ucrânia ao adoptar posições frequentemente interpretadas como favoráveis a Moscovo. Em várias ocasiões, chegou mesmo a responsabilizar Kiev pelo início do conflito, apesar da invasão russa de fevereiro de 2022.

Apesar das divergências, Zelensky reconhece que a influência de Washington continua determinante para qualquer acordo de paz duradouro. O presidente ucraniano revelou que discussões recentes com enviados norte-americanos indicaram a possibilidade de os Estados Unidos oferecerem algum tipo de garantia de segurança à Ucrânia, embora os detalhes ainda não estejam definidos.

Para Kiev, estas garantias são consideradas essenciais. Zelensky explicou que qualquer compromisso terá de ser aprovado por parlamentos nacionais e pelo Congresso dos Estados Unidos, de forma a impedir que futuras administrações possam abandoná-lo.

“Para nós isso é extremamente importante”, disse. “Mas ainda não temos uma resposta clara.”

Ao mesmo tempo, a Ucrânia procura reforçar as suas relações estratégicas com Washington através da cooperação militar. Zelensky confirmou que especialistas ucranianos em guerra com drones serão enviados para o Golfo para ajudar aliados dos Estados Unidos a enfrentar ataques com drones iranianos — tecnologia semelhante à utilizada pela Rússia contra cidades ucranianas.

Em troca, Kiev espera obter mísseis PAC-3 para os sistemas de defesa aérea Patriot, embora exista receio de que as reservas norte-americanas estejam a diminuir devido às operações militares no Médio Oriente.

Paralelamente às tensões com Washington, Zelensky enfrenta dificuldades crescentes dentro da União Europeia. O presidente acusou o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, de bloquear um pacote financeiro europeu avaliado em 90 mil milhões de euros, destinado a apoiar a economia e a indústria de defesa ucranianas.

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Segundo Zelensky, a UE deve preparar urgentemente um “plano B” caso o veto húngaro se mantenha.

“Nós e a Europa precisamos deste plano alternativo”, afirmou. “Estamos a defender não apenas a Ucrânia, mas também a liberdade de toda a Europa.”

A disputa com Budapeste agravou-se nas últimas semanas. Orbán acusa Kiev de atrasar deliberadamente reparações no oleoduto Druzhba, que transporta petróleo russo através da Ucrânia para a Hungria e a Eslováquia. Zelensky rejeita a acusação e afirma que os danos na infraestrutura foram causados por bombardeamentos russos.

O líder ucraniano foi ainda mais longe ao acusar o primeiro-ministro húngaro de alinhar politicamente com Moscovo.

“Ele está do lado do líder russo”, afirmou. “Bloqueia tudo para a Ucrânia — fundos, armas e até o nosso processo de adesão à União Europeia.”

A crescente tensão diplomática reflecte também o desgaste político acumulado ao longo da guerra. Analistas e antigos conselheiros do governo ucraniano afirmam que o tom mais duro de Zelensky resulta da frustração crescente em Kiev, à medida que as negociações de paz permanecem bloqueadas e o financiamento internacional enfrenta obstáculos.

Segundo um antigo conselheiro de política externa do presidente, esta frustração pode tornar-se contraproducente. “É um ciclo que começa a tornar-se autodestrutivo”, afirmou, alertando que a retórica mais agressiva pode afastar parceiros fundamentais.

No plano interno, no entanto, o endurecimento do discurso pode também servir para reforçar a posição política de Zelensky. O deputado da oposição ucraniana Mykola Kniazhytskyi considera que o presidente procura demonstrar firmeza perante as exigências do Kremlin.

“Zelensky sabe que não pode sacrificar os interesses nacionais nem abandonar as regiões orientais do país”, afirmou o parlamentar.

Ao mesmo tempo, o conflito diplomático com Orbán ilustra as divisões crescentes dentro da Europa sobre a guerra. Para alguns analistas, o risco é que a escalada verbal acabe por favorecer a estratégia política do líder húngaro, sobretudo num contexto de eleições legislativas próximas.

Enquanto isso, o impasse militar e político prolonga uma guerra que já se tornou uma das mais longas e destabilizadoras da Europa desde o final da Guerra Fria. Entre negociações incertas, tensões entre aliados e pressões económicas crescentes, o futuro do conflito continua profundamente incerto — e cada vez mais dependente do equilíbrio delicado entre Washington, Bruxelas e Moscovo.