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Internacional/Europa: 2026, o ano do risco existencial para a Europa

Pressões externas, liderança fragilizada e tensões transatlânticas colocam em causa a estabilidade, a segurança e o futuro do projeto europeu

O ano de 2026 começa sob um clima de cerco para a Europa, marcada por riscos existenciais crescentes e pela erosão contínua das normas que durante décadas sustentaram a estabilidade do continente. A fragilidade da liderança europeia surge como um fator agravante num contexto internacional cada vez mais transacional, instável e competitivo.

A pressão externa da Rússia intensifica-se na Ucrânia, a China fragiliza a base industrial da União Europeia e os Estados Unidos, ao ameaçarem de forma inédita anexar território de um aliado da NATO, colocam em causa o quadro multilateral europeu, hoje visto como desajustado à nova realidade geopolítica.

Nada indica que estas dinâmicas venham a abrandar. Pelo contrário, ao longo de 2026, a degradação progressiva das normas europeias deverá ser agravada pela debilidade política das lideranças, sobretudo nos chamados países E3 — Alemanha, França e Reino Unido.

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Os maiores riscos existenciais da Europa decorrem atualmente da relação transatlântica. Em 2025, a principal prioridade dos líderes europeus foi manter os Estados Unidos envolvidos na guerra na Ucrânia. Para 2026, o melhor cenário possível será a continuação de uma diplomacia ad hoc e de um relacionamento marcadamente transacional, como o que definiu os últimos 12 meses. No entanto, novas tensões — nomeadamente em torno da Gronelândia — podem tornar este equilíbrio insustentável.

O ano arranca também sem sinais de concessões por parte da Rússia quanto às exigências de cessar-fogo, nem de aceitação dos termos do plano de 20 pontos apresentado pelos EUA, UE e Ucrânia. O Presidente russo, Vladimir Putin, calcula que a situação militar ucraniana se degrade, forçando Volodymyr Zelenskyy a ceder em matéria territorial.

Esta leitura poderá, no entanto, revelar-se errada. Com o apoio europeu, Zelenskyy deverá continuar a resistir à pressão norte-americana, intensificando os ataques à produção e exportação de energia russas, ao mesmo tempo que mantém a resistência na linha da frente. Como consequência, é expectável um aumento dos ataques aéreos russos contra cidades e infraestruturas energéticas ucranianas.

Apesar disso, o aumento do investimento militar europeu, a aquisição de armamento norte-americano, o financiamento a Kiev e as sanções contra a Rússia, incluindo sobre receitas energéticas, poderão permitir a manutenção do status quo de 2025. Este será, ainda assim, o melhor cenário possível.

Em paralelo, os líderes europeus serão forçados a ignorar publicamente o apoio de Washington a partidos de extrema-direita, explicitado na nova estratégia de segurança nacional dos EUA, enquanto, nos bastidores, tentam conter a contestação antissistema nas urnas.

A eleição na Hungria surge como um teste decisivo à influência do movimento MAGA na Europa. O primeiro-ministro Viktor Orbán, no poder há 15 anos, enfrenta pela primeira vez a possibilidade real de derrota. O seu rival, Péter Magyar, de origem conservadora mas sem ligações a casos de corrupção, representa uma ameaça credível, agravada por uma economia estagnada e pelo aumento do custo de vida. Uma eventual escalada militar vinda da Ucrânia, com impacto direto na Hungria, poderá, no entanto, alterar o cenário eleitoral.

Todos estes desafios são amplificados pela fragilidade política do eixo E3. O esvaziamento do centro político europeu é um fenómeno com mais de uma década, mas França, Alemanha e Reino Unido entram em 2026 com governos fracos e impopulares, pressionados pela extrema-direita, pela esquerda radical e por uma administração norte-americana que não esconde simpatia pelo seu colapso. O risco é claro: paralisia política ou instabilidade profunda.

No Reino Unido, as eleições intercalares de maio poderão ser determinantes. O Partido Trabalhista enfrenta a perspetiva de resultados humilhantes na Escócia, no País de Gales e nas eleições locais em Inglaterra, abrindo caminho a uma contestação interna à liderança de Keir Starmer, cuja permanência no cargo é considerada incerta.

Em França, 2026 começa sem orçamento pelo segundo ano consecutivo. O Presidente Emmanuel Macron poderá, ainda assim, alcançar um acordo orçamental modesto até ao final do inverno, beneficiando da proximidade das eleições presidenciais de 2027. No entanto, a fragmentação da Assembleia Nacional deverá manter um clima de crise prolongada.

Na Alemanha, apesar de uma ligeira recuperação económica prevista, persistem fragilidades estruturais profundas. O Governo do chanceler Friedrich Merz, consumido por divisões ideológicas, terá dificuldades em implementar reformas de fundo, enquanto o crescimento da Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições regionais aumentará a pressão política.

Em 2026, uma verdade histórica volta a impor-se: a liberdade, a estabilidade, a prosperidade e a paz na Europa são frágeis. O período de exceção proporcionado pela Pax Americana e pela cooperação pós-Segunda Guerra Mundial chegou ao fim.

Da resposta europeia à agressão híbrida da Rússia, da sua influência na diplomacia sobre a guerra na Ucrânia, da capacidade de reforçar a competitividade económica e de conter a ascensão da extrema-direita, dependerá a relevância da Europa na nova ordem global.

É isso que decidirá se a Europa conseguirá sobreviver.

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