A situação provocada pelas cheias e inundações em Moçambique continua a agravar-se, com impactos humanos, sociais e infraestruturais significativos em várias regiões do país, sobretudo nas zonas centro e sul. Enquanto as autoridades reforçam as operações de salvamento, líderes políticos levantam críticas à gestão do risco e à capacidade de prevenção do Estado.
O líder da oposição moçambicana, Albino Forquilha, afirmou esta terça-feira que as mortes registadas na atual época chuvosa não podem ser atribuídas apenas a fenómenos naturais, defendendo que o problema está também ligado a falhas estruturais na governação.
“Quando estas situações se repetem ciclicamente, os números de mortos deixam de ser apenas consequência dos eventos naturais. Passa a ser um problema de governação”, declarou o presidente do Partido Otimista pelo Desenvolvimento de Moçambique (Podemos), a segunda força política com mais assentos no parlamento.
Forquilha apontou a ausência de infraestruturas resilientes, nomeadamente sistemas eficazes de retenção e escoamento de águas, como um fator determinante para a recorrência de inundações em bairros urbanos, sublinhando que se trata de uma falha de políticas públicas de gestão territorial e ambiental.
Em resposta às críticas, o Presidente da República, Daniel Chapo, assegurou que a prioridade do Governo é a salvaguarda da vida humana, numa altura em que as cheias continuam a causar estragos em várias províncias.
“Neste momento, a nossa prioridade é salvar vidas”, afirmou o chefe de Estado durante um encontro de balanço realizado em Maputo, acrescentando que a situação permanece crítica, sobretudo nas regiões centro e sul do país.
Segundo dados atualizados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), o número de mortos desde o início da época chuvosa subiu para 112, havendo ainda três pessoas desaparecidas e 99 feridos.
Entre 1 de outubro e 19 de janeiro, foram afetadas 645.781 pessoas, correspondentes a 122.863 famílias, com 11.233 casas parcialmente destruídas e 4.883 totalmente destruídas, agravando significativamente o balanço anterior.
O Governo estima que 40% da província de Gaza esteja submersa, com vários distritos de Maputo igualmente inundados. As estradas Nacional 1 (N1) e Nacional 2 (N2) permanecem intransitáveis, devido à subida do nível das águas, além da destruição de pelo menos 152 quilómetros de estradas nacionais.
Desde segunda-feira, funciona em Xai-Xai, província de Gaza, um centro nacional de coordenação, liderado pelo porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, para centralizar as operações de resposta.
Prosseguem ações de resgate de centenas de famílias que permanecem isoladas pelas cheias, algumas refugiadas em telhados de casas, viaturas ou árvores. As operações envolvem seis helicópteros e quatro aeronaves, estando condicionadas pelas condições meteorológicas e pelo aumento das descargas de barragens, incluindo em países vizinhos.
Os municípios moçambicanos alertaram para “muitos prejuízos” resultantes das cheias. O presidente da Associação Nacional dos Municípios de Moçambique (ANAM), João Ferreira, classificou a situação como uma das mais difíceis já enfrentadas pelas autarquias.
“Alguns municípios tiveram prejuízos enormes, e se já eram carentes, a situação agora será ainda mais difícil”, afirmou.
Ferreira considerou prematuro quantificar os danos financeiros, defendendo, contudo, a necessidade de incentivar construções em zonas altas, como forma de reduzir riscos futuros. A ANAM lançou uma campanha de mobilização de fundos através da plataforma “SOS”, para apoiar os municípios afetados.
O político Venâncio Mondlane defendeu que o foco imediato deve ser o resgate de pessoas em risco e a assistência humanitária, acusando o Governo de falhar na prevenção, apesar das previsões climáticas disponíveis desde agosto de 2025.
Mondlane recordou alertas oficiais sobre a saturação dos solos e a previsão de cheias acima do normal entre janeiro e março de 2026, defendendo que a informação não foi devidamente utilizada para preparar um plano de contingência eficaz.
Entre as falhas apontadas estão a ausência de evacuações preventivas, a falta de posicionamento estratégico de meios de resgate e a inexistência de reservas adequadas de alimentos e medicamentos. O político associou ainda a vulnerabilidade do país a problemas estruturais, incluindo corrupção e má gestão de fundos destinados à mitigação de desastres.
O Governo estima um défice de 6,6 mil milhões de meticais (cerca de 87,9 milhões de euros) para garantir assistência humanitária às populações deslocadas. Segundo Inocêncio Impissa, o valor é necessário para reforçar o apoio nos centros de acomodação, onde permanecem 70.488 pessoas.
No total, 69 dos 80 centros abertos desde o início da época chuvosa continuam ativos. Foram ainda afetadas 56 unidades sanitárias, 306 escolas, sete pontes, 27 aquedutos, 2.515 quilómetros de estradas e 155 postes de eletricidade.
As autoridades indicam que a retoma da circulação na N1, principal via terrestre do país, só será possível após a descida das águas e avaliação estrutural dos troços danificados.
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As fortes chuvas e inundações que assolam Moçambique em 2026 afectaram milhares de pessoas, provocando perdas de vidas, destruição de casas, estradas e terrenos agrícolas, e forçando muitas comunidades a deslocarem-se devido à subida das águas.
Perante a magnitude desta emergência, toda a ajuda disponível é necessária. O apoio de organizações humanitárias, instituições públicas e da sociedade civil é fundamental para garantir alimentos, água potável, abrigo e cuidados de saúde às famílias afectadas.
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