O clima económico das empresas moçambicanas voltou a deteriorar-se no quarto trimestre de 2025, confirmando uma tendência de desaceleração prolongada. Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que o Indicador do Clima Económico (ICE) registou a sexta queda trimestral consecutiva, refletindo uma perceção empresarial cada vez mais cautelosa em relação ao desempenho da economia.
O ICE é um índice sintético baseado na perceção dos agentes económicos sobre o ambiente em que operam e constitui um indicador antecipado da atividade económica. No último trimestre de 2025, o indicador voltou a recuar, acompanhando a deterioração das expectativas de emprego, que caem há três trimestres consecutivos. Este movimento ocorre apesar de uma avaliação mais favorável da procura, que interrompeu a tendência negativa observada desde o segundo trimestre de 2024.
Após ter atingido 89,8 pontos no terceiro trimestre de 2025, face aos 90,3 pontos do trimestre anterior, o indicador aproximou-se do mínimo histórico de 81,5 pontos registado em 2020. No período seguinte, voltou a cair, fixando-se em 88,5 pontos, consolidando o cenário de perda de confiança empresarial.
A análise sectorial evidencia que esta avaliação desfavorável resulta sobretudo da forte quebra de confiança no sector do comércio, contrariando expectativas anteriores. O sector dos serviços também registou ligeira deterioração, enquanto a produção industrial apresentou avaliação positiva, atenuando parcialmente o impacto global negativo.
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anuncie aqui!Entre outubro e dezembro de 2025, o indicador de expectativas de procura mostrou sinais de recuperação, interrompendo a avaliação negativa persistente desde meados de 2024. Ainda assim, os níveis mantiveram-se abaixo da média histórica. Segundo o relatório, a melhoria resultou de previsões favoráveis em todos os sectores, com destaque para a indústria e os serviços, que inverteram a tendência do trimestre anterior, enquanto o comércio manteve uma recuperação gradual iniciada em 2025.
No mesmo período, o indicador de expectativas de emprego estabilizou, mas permaneceu marcado por uma deterioração significativa acumulada ao longo do ano. O desempenho negativo foi influenciado principalmente pela avaliação desfavorável do sector comercial, apesar de melhorias expressivas registadas na indústria e nos serviços.
As expectativas relativas aos preços de bens e serviços também registaram nova redução, prolongando a tendência negativa pelo quarto trimestre consecutivo, após terem atingido um pico no final de 2024.
O ambiente operacional das empresas permanece condicionado por obstáculos estruturais. Em média, 40,7% das empresas inquiridas relataram dificuldades, um aumento de 1,2 pontos percentuais face ao trimestre anterior. A indústria de produção destacou-se como o sector mais afetado, com 46,0% das empresas a reportarem constrangimentos, seguida pelos serviços (39,0%) e pelo comércio (37,0%).
Este desempenho económico recente não pode ser dissociado do contexto político e social que marcou o país. Entre outubro de 2024 e março de 2025, a economia moçambicana foi profundamente afetada por protestos violentos pós-eleitorais, que paralisaram atividades produtivas, desencadearam uma recessão económica e provocaram mais de 400 mortes, sobretudo em confrontos com forças policiais. O impacto dessas perturbações continua a refletir-se na confiança empresarial, no investimento e na dinâmica do emprego.
No contexto atual, os dados do ICE oferecem uma leitura concreta para a realidade moçambicana. A desaceleração da confiança empresarial traduz-se, na prática, em menor criação de empregos, maior prudência no investimento e recuperação económica mais lenta. Embora haja sinais de melhoria nas expectativas de procura e na atividade industrial, o enfraquecimento persistente do comércio e a instabilidade recente mantêm o ambiente económico vulnerável.
Para a população, estes indicadores ajudam a explicar a pressão contínua sobre o custo de vida, a fragilidade do mercado de trabalho e o ritmo limitado de recuperação económica. A trajetória do ICE sugere que a retoma dependerá não apenas da estabilização macroeconómica, mas também da confiança social, da previsibilidade política e da capacidade de reduzir os constrangimentos enfrentados pelas empresas.





