A retoma das campanhas preventivas de vacinação contra a cólera, anunciada pela Organização Mundial da Saúde em parceria com o UNICEF e a aliança vacinal Gavi, coincide com um momento crítico para Moçambique, onde o atual surto já ultrapassa a marca de 5.499 infetados e 71 mortos desde setembro. O país tornou-se o primeiro a reiniciar campanhas regulares após três anos de suspensão provocada pela escassez global de vacinas, um sinal de alívio internacional que, no entanto, não dissipa a gravidade da crise sanitária local.
Segundo dados da Direção Nacional de Saúde Pública, 111 novos casos e uma morte foram registados em apenas 24 horas, na cidade portuária de Nacala, elevando a taxa de letalidade nacional para 1,3%. A província de Nampula concentra a maior parte dos casos, com 2.341 infeções e 32 mortes, seguida de Tete, com 2.095 casos e 28 óbitos, e Cabo Delgado, com 895 casos e oito mortos. Zambézia e Manica apresentam números mais reduzidos, mas confirmam a extensão territorial da epidemia.
A progressão do atual surto é particularmente significativa quando comparada com o episódio anterior, entre outubro de 2024 e julho de 2025, que registou 4.420 casos e 64 mortes. Em cerca de metade do tempo, o novo surto já ultrapassou esses números, evidenciando um padrão de propagação mais rápido e persistente.
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Anuncie aqui!A vacinação em massa surge como instrumento central de contenção. Em apenas cinco dias de campanha, o Governo moçambicano imunizou 1.790.410 pessoas em quatro províncias, superando a meta prevista. As doses fazem parte de um lote inicial de 20 milhões de vacinas distribuídas globalmente, das quais 3,6 milhões foram destinadas a Moçambique, enquanto outras seguiram para a República Democrática do Congo e para Bangladesh.
O reforço do abastecimento mundial resulta de um aumento substancial da produção, liderado pela empresa EUBiologics, atualmente o único fabricante com capacidade para produção em larga escala. A escassez de doses, que desde 2022 obrigou à adoção de esquemas de vacinação de dose única e à suspensão de campanhas preventivas, havia colocado a resposta global numa lógica reativa, limitada à gestão de surtos.
“O mundo foi forçado a reagir à cólera em vez de preveni-la. Hoje estamos numa posição mais forte”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, sublinhando a importância da prevenção sistemática.
No caso moçambicano, a propagação da doença está intimamente ligada à vulnerabilidade estrutural do sistema de abastecimento de água e saneamento. Inundações recentes afetaram mais de 700 mil pessoas, danificando infraestruturas hídricas e criando condições propícias à contaminação. A cólera, infeção intestinal aguda transmitida por água ou alimentos contaminados pela bactéria Vibrio cholerae, pode matar em poucas horas quando não tratada, apesar de ser facilmente controlável com reidratação oral e antibióticos em casos graves.
Publicidade
anuncie aqui!Especialistas sublinham que a vacinação, embora crucial, não substitui investimentos duradouros em infraestruturas médicas e sanitárias. O plano governamental aprovado em setembro estabelece como meta eliminar a cólera como problema de saúde pública até 2030, através de acesso universal à água potável, saneamento adequado e cuidados de saúde de qualidade, num programa avaliado em 31 mil milhões de meticais.
A crise moçambicana insere-se num panorama global ainda preocupante. Mais de 600 mil casos e 7.600 mortes foram reportados em 33 países no último ano, números considerados subestimados pelas agências internacionais. Embora a incidência global tenha diminuído em 2025, a mortalidade continuou a aumentar, refletindo desigualdades persistentes no acesso a tratamento e prevenção.
A retoma da vacinação preventiva representa, assim, um avanço decisivo, mas também um teste à capacidade dos Estados de transformar intervenções emergenciais em soluções estruturais. Em Moçambique, a evolução do surto ilustra de forma clara que a luta contra a cólera depende menos de respostas pontuais e mais da consolidação de sistemas de saúde resilientes e de infraestruturas básicas capazes de interromper, na origem, o ciclo de transmissão da doença.





