No Oriente Médio, a atenção internacional tem sido desviada pelas manifestações reprimidas com violência no Irã e pelas especulações sobre possíveis ataques americanos. No entanto, o que realmente redesenha o cenário regional é o surgimento de uma nova disputa estratégica, na qual Teerã já não se impõe como ator principal.
A região está entrando em uma fase marcada pela concorrência entre dois blocos emergentes: uma coalizão dita “abrahâmica”, em referência aos Acordos de Abraão de normalização entre Israel e países árabes, mediada pelos Estados Unidos em 2020, e uma coalizão “islâmica”, formada por países muçulmanos com interesses distintos. Embora ainda não existam alianças formais, essas duas frentes se estruturam de forma crescente, influenciando a política regional.
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Anuncie aqui!O primeiro bloco, centrado em Israel e nos Emirados Árabes Unidos (EAU), inclui também Marrocos, Grécia e Índia. Esta coalizão busca reconfigurar os equilíbrios regionais por meio da força militar, cooperação tecnológica e integração econômica. Seu núcleo acredita que o atual equilíbrio de poder falhou em conter a ascensão do islamismo, seja a vertente xiita apoiada pelo Irã, seja a sunnita sustentada pela Turquia e pelo Qatar. Para estes países, a estabilidade duradoura passa por intervenções em conflitos regionais para apoiar movimentos mais democráticos.
Estimulado pelo interesse do presidente Trump em reviver os Acordos de Abraão, o bloco busca expandir a normalização das relações diplomáticas entre países árabes e Israel, independentemente de avanços na solução palestina ou da implementação de uma política de dois Estados por Israel. As operações militares de Israel em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro reforçaram sua capacidade de dissuasão e reafirmaram seu poderio militar. Já os EAU, considerados a “pequena Esparta”, continuam a expandir sua influência econômica e diplomática, atuando em países como Sudão, Iêmen e Líbia.
A Grécia emergiu como aliada estratégica no Mediterrâneo oriental, reforçando parcerias de segurança com Israel para conter a influência da Turquia, vista como adversária comum. Mais a leste, a Índia aproxima-se de Israel e dos EAU, tanto em relações bilaterais quanto em estruturas multilaterais, como o I2U2 e o corredor econômico Índia–Oriente Médio–Europa.
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anuncie aqui!Em contraposição, um bloco liderado pela Arábia Saudita reúne Turquia, Paquistão, Qatar e, de forma mais cautelosa, o Egito. Esta coalizão vê no eixo Israel-EAU uma fonte de desestabilização regional, considerando que o apoio aos movimentos separatistas fragmenta ainda mais a região. A prioridade é preservar estruturas existentes, mesmo imperfeitas, e trabalhar com elas em conflitos no Iêmen, Sudão e outros pontos críticos.
No último ano, a Arábia Saudita estreitou laços com o Paquistão, assinando um acordo de defesa após ataques aéreos israelenses contra o Qatar. Sua cooperação militar com a Turquia também se intensificou, e um acordo de defesa formal está em negociação. O Egito, preocupado com a atividade de EAU e Israel na Córnea da África, discute cooperação mais estreita com Riad no Sudão e na Somália.
Um fator crítico dessa recomposição é a rivalidade crescente entre Arábia Saudita e EAU, historicamente parceiros próximos. Disputas de influência na região, como no Iêmen, demonstram que conflitos por procuração podem evoluir para confrontos diretos, incluindo restrições de espaço aéreo, fechamento de fronteiras e possível saída de instituições dominadas por Riad. Tais cenários, antes impensáveis, poderiam impactar mercados de energia, circulação regional e economia local.
Até o momento, a diplomacia discreta entre países do Golfo evitou uma escalada aberta, mas as divergências permanecem profundas e estruturais, ultrapassando relações pessoais entre líderes. Esta luta de influência entre coalizões também complica os objetivos centrais de Washington, como a normalização das relações entre Arábia Saudita e Israel.
Riad entende a vantagem de um acordo que garanta segurança americana, em troca de maior integração de Israel na ordem regional. Porém, na ausência de mudanças significativas na política israelense, especialmente em Gaza e Cisjordânia, o reino tende a se aproximar ainda mais da Turquia e do Paquistão, em detrimento de Israel.
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Anuncie aqui!Para os Estados Unidos, o principal desafio geopolítico não é mais conter o Irã, cujo regime sofreu desgaste extremo, mas gerir a rivalidade perigosa entre aliados para evitar uma polarização ainda mais arriscada. A tarefa é complexa, ainda mais considerando divisões internas em Washington, onde interesses econômicos particulares influenciam decisões estratégicas.
Se Trump deseja paz duradoura no Oriente Médio, será necessário tratar seriamente das rivalidades entre aliados e intervir após as eleições legislativas de Israel em 2026, garantindo que o novo governo não seja refém de facções radicais que bloqueiam a criação de um Estado palestino. Segundo dirigentes sauditas, a política do reino é pragmática e adaptativa, buscando oportunidades em tempos de extrema incerteza.
Caso consiga aproximar Arábia Saudita e Israel antes do fim de seu mandato, Trump poderia consolidar uma ordem regional pós-Irã sob influência americana, reunindo coalizões rivais sob um amplo guarda-chuva diplomático e garantindo estabilidade estratégica para a região por anos.





