As inundações que têm atingido Portugal nas últimas semanas provocaram o colapso de parte da principal autoestrada do país e forçaram a evacuação preventiva de cerca de 3.000 moradores na região de Coimbra, no centro do território. A ruptura de um dique do rio Mondego, junto a um dos pilares que sustentam a autoestrada A1 — eixo estratégico que liga Lisboa ao Porto —, abriu uma brecha na via e agravou um cenário já descrito pelas autoridades como crítico.
O incidente ocorreu na noite de quarta-feira, após dias de precipitação persistente e subida acelerada dos caudais fluviais. Segundo a presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, a estrada já se encontrava encerrada ao trânsito por precaução quando o colapso estrutural se verificou. A autarca descreveu a situação como “extremamente instável”, sublinhando que Coimbra e localidades vizinhas enfrentam isolamento parcial e danos generalizados provocados pelas cheias.
A gravidade do momento foi também reconhecida pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, que se deslocou à região para acompanhar as operações de emergência. Perante os jornalistas, o chefe do governo admitiu que as autoridades se encontram “no limite da capacidade de contenção das águas”, expressão que ilustra a pressão crescente sobre os meios de resposta civil.
Desde o final de Janeiro, uma sucessão de tempestades tem atingido sobretudo as regiões centro e sul do país, arrancando coberturas de habitações, submergindo bairros urbanos e deixando centenas de milhares de pessoas sem electricidade durante vários dias. O balanço provisório aponta para pelo menos 15 mortos, incluindo vítimas indirectas relacionadas com os efeitos das intempéries.
A actual crise decorre num contexto político sensível. O primeiro-ministro supervisiona as operações poucos dias após a demissão da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, que abandonou o cargo na sequência de críticas da oposição e de comunidades locais à alegada lentidão da resposta governamental à devastadora tempestade Kristin, registada duas semanas antes.
Apesar de uma breve trégua nas condições meteorológicas, um fenómeno atmosférico conhecido como “rio atmosférico” voltou a intensificar as chuvas, transportando grandes quantidades de humidade desde latitudes tropicais e afectando com maior severidade o norte do país. O impacto hidrológico deste sistema elevou os níveis dos rios e reactivou alertas de transbordamento em diversas bacias.
Na noite de terça-feira, as autoridades municipais de Coimbra ordenaram a evacuação preventiva das zonas mais vulneráveis ao avanço das águas. A operação prosseguiu ao longo de quarta-feira, com equipas policiais a realizarem verificações porta a porta e a encaminharem residentes para centros de acolhimento temporário.
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anuncie aqui!A Proteção Civil regional alertou para o risco de agravamento da situação caso o volume de precipitação continue elevado. O responsável regional, Carlos Tavares, advertiu que a barragem da Aguieira, localizada a cerca de 35 quilómetros a nordeste de Coimbra, poderá atingir níveis críticos, cenário que poderia provocar transbordamentos, ruptura de diques e novas inundações. A Agência Portuguesa do Ambiente confirmou a previsão de um período excepcional de caudais máximos no rio Mondego até ao fim de semana.
Os danos materiais estendem-se ao património urbano. Parte da antiga muralha de Coimbra, situada numa encosta histórica classificada como Património Mundial da UNESCO, desabou, bloqueando uma via adjacente e obrigando ao encerramento do mercado municipal.
Noutras áreas do centro do país, as autoridades ordenaram a evacuação da localidade de Porto Brandão, devido ao risco de deslizamentos de terra. Na zona costeira da Caparica, cerca de 30 residentes foram retirados das suas habitações após um movimento de vertente que ameaçou estruturas habitacionais.
O episódio evidencia a vulnerabilidade das infra-estruturas portuguesas perante fenómenos meteorológicos extremos cada vez mais frequentes, ao mesmo tempo que expõe tensões políticas em torno da capacidade de resposta do Estado face a eventos climáticos de elevada intensidade.





