“Seus companheiros são cidadãos comuns, de diferentes países africanos, vivendo vidas normais. Sua missão: recuperar objetos antigos africanos em museus ocidentais.” É assim que o estúdio sul-africano Nyamakop descreve Relooted, seu novo jogo lançado na terça-feira, disponível em várias plataformas. Mas, antes de tudo, como ressalta o estúdio, “não se trata apenas de um roubo — é uma missão de resgate”.
O jogo se passa em 2099, em um mundo em que o Tratado Transatlântico de Restituição está desmoronando, enquanto museus ocidentais buscam formas de não devolver os tesouros africanos saqueados. No centro da narrativa está a professora Grace, especialista em arte africana, que, frustrada com a inércia diplomática, forma uma equipe de ladrões para recuperar 70 objetos históricos e devolvê-los ao Museu das Civilizações Negras, em Dakar, Senegal, inaugurado em 2018.
Embora a história seja ficcional, os objetos representados no jogo são reais, muitos saqueados no final do século XIX e início do século XX, e alguns mais recentemente, como as estelas funerárias vigango do Quênia e da Tanzânia, roubadas nos anos 1980 e 1990 e posteriormente vendidas a colecionadores e museus ocidentais. Totens de madeira sagrada do povo Mijikenda também aparecem no jogo, alguns já retornados ao Quênia.
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anuncie aqui!O lançamento de Relooted coincide com um momento em que as discussões sobre restituição de arte africana estão cada vez mais intensas. No dia 8 de fevereiro, o Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge devolveu ao Nigéria 116 objetos saqueados durante o ataque a Benin City em 1897, destacando o efeito dominó esperado em relação a outros museus, incluindo o British Museum, que detém a maior coleção mundial de bronzes do Benim, segundo The Observer.
Nyamakop, conhecido por criar jogos que exploram identidade africana e questões sociais, assume com Relooted uma confrontação direta com injustiças históricas. Em uma indústria dominada por narrativas ocidentais, o jogo traz vozes africanas autênticas, oferecendo perspectivas criativas sobre problemas africanos, ressalta o portal Brittle Paper.
A equipe de desenvolvimento inclui artistas africanos do Nigéria, Angola, Malawi, Etiópia, Tanzânia e Quênia, que também participaram do elenco de vozes dos personagens. O jogo marca ainda um feito: é o primeiro desenvolvido na África a ser lançado para o console Nintendo, segundo BBC News Africa.
Diferentemente dos tradicionais jogos de roubo, em Relooted os personagens não buscam lucro. Eles não têm histórico criminoso, e sua motivação é reparar injustiças históricas, devolvendo a arte saqueada aos lugares de origem. Para a autora Mohale Mashigo, os braquages são fascinantes pelo trabalho coletivo e pelas personalidades distintas de cada membro da equipe, que devem colaborar para o sucesso da missão.
Contudo, o jogo também enfrenta críticas e ataques racistas online, questionando se a África estaria preparada para cuidar de seu patrimônio. Ben Myres, diretor criativo de Relooted, considera que isso reflete uma guerra cultural que ocorre principalmente no Ocidente, onde a resistência à diversidade e inclusão ainda é evidente. “Jogos como Tomb Raider ou Indiana Jones envolvem roubos, mas quando africanos são os protagonistas, isso se torna um problema?”, questiona ele.
Relooted, assim, não é apenas um jogo, mas uma narrativa política e cultural, um convite para refletir sobre história, memória e restituição, enquanto oferece aos jogadores uma experiência interativa inovadora, centrada em uma visão africana do mundo.





