Cerca de dois mil milhões de espectadores, espalhados pelos fusos horários do planeta, assistiram na sexta-feira à noite à cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, inevitavelmente acompanhados por uma pergunta que se impunha desde o primeiro minuto. Como poderiam os italianos rivalizar com o impacto global da cerimónia dos Jogos Olímpicos de Verão de Paris 2024, amplamente considerada um ponto de viragem na história recente do olimpismo? A interrogação, observava o diário belga Le Soir, ardia “como a chama do Olimpo”.
A expectativa era elevada. A proposta parisiense, marcada por uma modernidade assumida, por uma leitura política e inclusiva do espetáculo e por uma estética pop deliberadamente disruptiva, redefinira os códigos do exercício. Perante esse antecedente, a cerimónia italiana teria de escolher entre a rutura e a continuidade. Para vários observadores internacionais, a opção foi clara.
“O espetáculo não transcendeu o formato como em Paris”, escreveu Le Soir, sublinhando que a grande celebração italiana prestou homenagem ao património da Península num evento elegante, mas previsível, sem verdadeira surpresa estética. Uma leitura partilhada por parte da imprensa europeia, ainda que matizada por avaliações menos severas.
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anuncie aqui!A revista Variety reconheceu que, embora a cerimónia de Milão não tenha atingido a mesma escala nem o impacto simbólico da capital francesa, ofereceu “um acolhimento caloroso” ao maior evento desportivo do mundo. Do tributo coreográfico às obras do escultor Antonio Canova à interpretação da ária “Nessun Dorma”, de Puccini, por Andrea Bocelli, a produção optou por afirmar, sem ambiguidades, a identidade cultural italiana como fio condutor do espetáculo.
No balanço final, La Stampa sintetizou o espírito da noite como a imagem de “uma Itália ultra-clássica, enriquecida por toques elegantes e escolhas assumidamente retro”. Um retrato fiel de uma cerimónia concebida como vitrina patrimonial, mais do que como manifesto contemporâneo.
O espetáculo, que reuniu 1.300 artistas e foi dirigido por Marco Balich, nome incontornável das grandes cerimónias olímpicas, teve início às 20 horas e prolongou-se por três horas e meia. Para o diário espanhol El País, tratou-se de um longo “percurso iconográfico” através dos símbolos da cultura italiana, da dolce vita ao café, da moda às artes plásticas, passando pelo poema “Infinito”, de Leopardi, e até por uma encenação do célebre linguajar gestual italiano.
A viagem simbólica culminou com o hino nacional italiano, interpretado por Laura Pausini, depois de Mariah Carey, envolta numa cascata de brilhantes, ter cantado “Nel Blu Dipinto Di Blu”, eternizado como “Volare”. Antes disso, o pianista Lang Lang e a mezzo-soprano Cecilia Bartoli haviam dado voz ao hino olímpico, num momento de solenidade contida.
A ópera esteve omnipresente ao longo da noite. Para além do Nessun Dorma de Bocelli, inevitavelmente comparado à interpretação histórica de Luciano Pavarotti nos Jogos de Turim 2006, os grandes compositores italianos Giuseppe Verdi, Gioachino Rossini e Giacomo Puccini foram homenageados por bailarinos com máscaras à sua imagem. Uma homenagem que o jornal suíço Blick classificou como ambígua, uma vez que os compositores surgiram a dançar ao som do hino oficial dos Jogos, “Milano Cortina”, construído sobre a melodia de “Vamos a la Playa”, êxito pop de 1983.
Entre os momentos mais comentados da noite esteve a aparição inesperada do Presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, que chegou a
o estádio San Siro a bordo de um elétrico milanês, símbolo da cidade. O detalhe tornou-se ainda mais mediático quando se revelou que o condutor era Valentino Rossi, lenda viva do MotoGP, numa cena que La Repubblica classificou como a verdadeira surpresa da cerimónia.
Apesar do clima festivo, nem tudo foi consenso. O jornal suíço Le Temps notou que o ruído constante dos helicópteros sobre Milão e as reações variáveis do público durante o desfile das delegações refletiram, de forma subtil, as tensões do mundo contemporâneo. A entrada da delegação ucraniana foi recebida com fortes aplausos, enquanto os atletas israelitas foram alvo de vaias. A chegada dos Estados Unidos começou sob aplausos, mas transformou-se em contestação quando a imagem do vice-presidente J.D. Vance surgiu nos ecrãs gigantes.
Ainda assim, nada foi suficiente para ofuscar o momento culminante da noite. Alberto Tomba e Deborah Compagnoni, duas figuras míticas do esqui italiano, acenderam a pira olímpica em Milão, enquanto, em simultâneo, a esquiadora Sofia Goggia acendia a chama em Cortina d’Ampezzo. Foi a primeira vez na história olímpica que duas piras foram acesas ao mesmo tempo, um gesto carregado de simbolismo.
Para o Corriere della Sera, a chama transformou-se então em “Harmonia”, uma linguagem universal capaz de unir cidades e montanhas, povos e gerações, numa promessa de esperança, diálogo e paz que, segundo o diário, continuará a brilhar para lá destes Jogos.





