Moçambique atravessa um momento de elevada complexidade social, marcado pela persistência da violência armada no norte do país, pelo aprofundamento de parcerias estratégicas internacionais e por uma crise humanitária sem precedentes provocada por cheias devastadoras no sul. Três dinâmicas distintas, mas interligadas, expõem fragilidades estruturais e colocam à prova a capacidade de resposta do Estado.
Nas últimas horas, canais de propaganda associados ao Estado Islâmico (EI) reivindicaram um ataque “simultâneo” contra posições militares em Catupa e Tamali, no distrito de Macomia, província de Cabo Delgado. A ação, não confirmada oficialmente pelas autoridades moçambicanas, teria ocorrido no domingo e envolvido o uso de diferentes tipos de armas ligeiras, segundo a reivindicação divulgada. Os insurgentes afirmam ter incendiado as bases e capturado grandes quantidades de armamento.
A versão oficial aponta para um confronto iniciado após uma tentativa de assalto a uma base das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM). De acordo com uma fonte militar em Macomia, os rebeldes tentaram surpreender os soldados com disparos à queima-roupa, mas foram repelidos. Pelo menos cinco atacantes morreram, outros ficaram feridos, e não houve registo de mortos do lado governamental, embora alguns militares tenham sofrido ferimentos.
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anuncie aqui!A base de Catupa, situada a mais de 25 quilómetros da estrada Nacional 380, já foi alvo de ataques anteriores, num contexto de insurgência que dura há oito anos. Desde o primeiro ataque, em outubro de 2017, em Mocímboa da Praia, o conflito em Cabo Delgado provocou 6.432 mortos, segundo dados da ACLED, organização internacional que monitora conflitos armados. Dos 2.310 eventos violentos registados, 2.146 envolveram grupos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM), evidenciando a centralidade destes grupos na escalada da violência.
O mais recente relatório da ACLED destaca ainda um ataque raro com morteiros contra posições ruandesas em Macomia, sublinhando os confrontos contínuos entre insurgentes e as forças do Ruanda, que apoiam o exército moçambicano. Em paralelo, o EIM tem reforçado o reabastecimento logístico, aproveitando a estação chuvosa e a mobilidade costeira, num ambiente de segurança cada vez mais fragmentado.
Enquanto o norte enfrenta a persistência do conflito, o Governo moçambicano procura reforçar a resiliência estrutural do país através da cooperação internacional. Em Maputo, Moçambique e o Japão assinaram novos acordos que elevam o financiamento de dois projectos considerados estratégicos: a construção de infra-estruturas de drenagem em Nacala e a edificação de uma Unidade Neonatal no Hospital Central de Maputo (HCM).
O financiamento do projecto de drenagem em Nacala foi revisto de 20,75 milhões para 21,81 milhões de dólares, enquanto a unidade neonatal passou de 19,37 milhões para 21,01 milhões de dólares, segundo anunciou a ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Lucas. Para a governante, os acordos refletem uma parceria estratégica baseada na confiança mútua e alinhada com as prioridades nacionais de desenvolvimento sustentável e inclusão social.
A Agência Japonesa de Cooperação Internacional (JICA) explicou que o projecto de Nacala será financiado através de uma subvenção de até 3,36 mil milhões de ienes, com o objetivo de mitigar riscos associados à erosão e a desastres naturais numa cidade-chave para a economia nacional. Já o reforço financeiro da unidade neonatal permitirá melhorar infra-estruturas, equipamentos e condições de atendimento a recém-nascidos e mulheres grávidas, contribuindo para a redução da mortalidade neonatal.
No sul do país, porém, a realidade impõe uma urgência diferente. As cheias históricas em Chókwè, na província de Gaza, submergiram 88% do território distrital, afetando cerca de 170 mil pessoas e destruindo meses de produção agrícola no chamado “celeiro de Moçambique”. Desde 15 de janeiro, 2.258 quilómetros quadrados permanecem inundados, comprometendo a subsistência de 44 mil produtores, sobretudo de arroz.
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anuncie aqui!“É uma tragédia nova que não se compara com outras”, resume o administrador do distrito, Narciso Nhamuco, ao descrever uma situação em que até zonas antes consideradas seguras foram alcançadas pelas águas do Limpopo. Com 45.750 hectares de campos agrícolas totalmente destruídos, o risco de fome tornou-se iminente, aumentando a dependência de assistência alimentar.
As cheias afetaram igualmente centros de saúde, edifícios públicos e 84 escolas, algumas transformadas em centros de abrigo, acolhendo 63 mil alunos. O início do ano letivo foi adiado para 27 de fevereiro, enquanto autoridades e parceiros avaliam soluções de emergência para garantir o regresso às aulas. Professores deslocados, estradas destruídas e acessos interrompidos agravam a incerteza.
Entre a água pela cintura e a escassez de combustível, a população tenta sobreviver como pode. O transporte encareceu, o abastecimento colapsou e relatos de vandalismo em casas abandonadas revelam a erosão do tecido social. “O mais prioritário é alimentação”, afirma o professor Apolinário Basílio, ecoando um sentimento partilhado por milhares de famílias.
Num país atravessado simultaneamente pela violência armada, pela reconstrução estrutural e pela emergência humanitária, o desafio que se impõe a Moçambique é o de articular respostas imediatas sem perder de vista reformas de longo prazo. Entre o norte em conflito, o centro em reconstrução e o sul submerso, o futuro próximo dependerá da capacidade de transformar crise em resiliência.





