A União Europeia (UE) e a Índia formalizaram um acordo histórico de comércio livre (FTA), considerado o maior de sempre entre as duas economias. O pacto, anunciado esta semana, abrange quase dois mil milhões de pessoas e representa quase um quarto do Produto Interno Bruto mundial, estabelecendo um novo marco nas relações comerciais globais.
O acordo prevê a eliminação ou redução de tarifas sobre 96,6% das exportações da UE para a Índia e a liberalização de 99,5% das tarifas indianas sobre produtos europeus ao longo de sete anos. A Comissão Europeia estima que os exportadores possam poupar até 4 mil milhões de euros por ano, recursos que podem ser reinvestidos em produção, salários e preços mais baixos para os consumidores.
Setores estratégicos, como máquinas, equipamentos elétricos e automóveis, são particularmente beneficiados. Os impostos sobre veículos na Índia, por exemplo, cairão de 110% para 10%, enquanto peças automóveis passarão a ser isentas de tarifas, abrindo o mercado automóvel indiano, um dos que mais cresce no mundo. Produtos químicos e farmacêuticos europeus também terão acesso facilitado ao mercado, com tarifas gradualmente eliminadas nos próximos anos.
No setor agrícola, produtos de alto valor agregado, como vinhos, azeite, doces e bebidas espirituosas, terão acesso preferencial ao crescente mercado de classe média indiana. As tarifas, que em alguns casos chegavam a 150%, sofrerão cortes significativos, embora setores sensíveis como carne, frango, arroz e açúcar permaneçam protegidos.
O FTA também abrange serviços, oferecendo maior previsibilidade a empresas europeias nos setores financeiro, marítimo e profissional, e inclui medidas específicas para pequenas e médias empresas (PME). Uma plataforma digital dedicada permitirá que estas empresas acedam a informações atualizadas sobre tarifas, procedimentos alfandegários e requisitos de entrada no mercado indiano.
O impacto do acordo não se limita à Europa ou à Índia. Países africanos, incluindo Moçambique e Nigéria, poderão beneficiar indiretamente através de cadeias de valor regionais, atração de investimento estrangeiro e oportunidades de exportação de matérias-primas e produtos semi-elaborados. No entanto, especialistas alertam que o desafio está em transformar esses fluxos em desenvolvimento concreto, evitando que apenas grandes multinacionais capturem os benefícios.
Com a economia indiana a crescer acima de 6% ao ano e uma população jovem de 1,45 mil milhões, o acordo representa uma aposta estratégica da UE num cenário global de comércio fragmentado e crescente protecionismo. Espera-se que as exportações europeias para a Índia possam dobrar até 2032, reforçando empregos em manufatura, agricultura e serviços.
Enquanto o pacto abre oportunidades sem precedentes, economistas e analistas sublinham que a verdadeira eficácia dependerá da implementação rigorosa, da monitorização do comércio e do aproveitamento das novas possibilidades por empresas de todos os portes, incluindo as africanas.





